Déficit de armazenagem pressiona logística da safra recorde de grãos no Brasil
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Capacidade oficial de estocagem equivale a cerca de 65% da produção estimada para 2025/26; estudo da nstech aponta baixa presença de silos dentro das fazendas
A safra recorde de grãos prevista para 2025/26 deve ampliar a pressão sobre a infraestrutura de armazenagem e transporte no Brasil. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a produção nacional está estimada em 358,6 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica.
Do outro lado, a capacidade disponível de armazenagem agrícola no país chegou a 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, de acordo com o IBGE. Isso significa que a estrutura existente equivale a cerca de 65% da safra projetada pela Conab. Em termos absolutos, a diferença entre produção estimada e capacidade instalada é de aproximadamente 125 milhões de toneladas.
O dado ajuda a dimensionar um dos principais gargalos do agronegócio brasileiro: o país produz mais grãos do que consegue armazenar. Com isso, parte relevante da safra precisa ser escoada logo após a colheita, justamente no período em que aumenta a demanda por caminhões, armazéns, terminais e portos.
Um relatório da empresa de tecnologia logística nstech aponta que a capacidade de armazenagem cobre cerca de 60% da produção nacional. O mesmo estudo afirma que apenas 17% da capacidade está localizada dentro das propriedades rurais, percentual considerado baixo em comparação com outros grandes produtores agrícolas.
Na prática, a falta de estrutura nas fazendas reduz a margem de decisão dos produtores. Sem espaço para guardar a produção, muitos precisam vender ou transportar os grãos imediatamente após a colheita, mesmo quando os preços ou os custos de frete não são os mais favoráveis.
Transporte ainda depende das rodovias
Além da armazenagem insuficiente, a logística de grãos no Brasil segue concentrada no transporte rodoviário. Segundo o levantamento da nstech, com base em dados da Esalq-Log, da ANTT e do Ministério dos Transportes, as rodovias responderam por 69% do escoamento da soja brasileira em 2023. As ferrovias ficaram com 22%, e as hidrovias, com 9%.
A estimativa do estudo é que a participação ferroviária avance para 25% em 2025, enquanto as hidrovias permaneçam em 9% e as rodovias recuem para 66%. Apesar da melhora, o transporte por caminhões ainda deve responder por cerca de dois terços da movimentação da safra.
Essa concentração aumenta a sensibilidade do setor a oscilações no preço do frete, à disponibilidade de caminhões e às condições das estradas. Durante o pico da colheita, a disputa por transporte tende a elevar custos e provocar filas em armazéns, terminais ferroviários e portos.
Menos armazenagem, mais custo
Especialistas do setor apontam que ampliar a rede de armazenagem, especialmente dentro das propriedades rurais, é uma das formas de reduzir gargalos logísticos. Com mais silos nas fazendas, o produtor pode distribuir o transporte ao longo do ano, evitar a concentração de embarques no pico da safra e escolher momentos mais favoráveis para vender.
O IBGE mostra que os silos representam 53,3% da capacidade útil total de armazenagem do país. Mato Grosso tem a maior estrutura instalada, com 64,2 milhões de toneladas, seguido por Rio Grande do Sul, com 38,9 milhões, e Paraná, com 35,7 milhões.
Mesmo com o crescimento da estrutura nos últimos anos, a expansão da capacidade de armazenagem ainda não acompanha o ritmo da produção. Desde 1997, a capacidade útil instalada mais que dobrou, passando de 110 milhões para 233,8 milhões de toneladas, mas a produção de grãos também avançou fortemente no período.
O resultado é um cenário em que o Brasil mantém alta competitividade na produção agrícola, mas ainda enfrenta obstáculos para armazenar, transportar e escoar a safra com menor custo.