Endividamento das famílias atinge 80,4% e bate recorde histórico no Brasil; alta de preços, juros ainda elevados e incertezas externas pressionam orçamento e levam milhões ao crédito para manter despesas básicas
Jornalista | Radialista | Comunicador Multimídia -
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), por meio da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, mostra que o país vive o maior nível de famílias com contas a pagar desde 2010
O Brasil chegou a um novo recorde no número de famílias com dívidas em março de 2026. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,4% dos lares brasileiros estavam endividados, o maior percentual já registrado desde o início da série histórica, em 2010. O dado faz parte da tradicional Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor e revela um cenário de forte pressão sobre o orçamento das famílias, que seguem recorrendo ao crédito para conseguir fechar as contas do mês.
O avanço do endividamento ocorre em meio a um ambiente econômico ainda instável, influenciado por fatores externos e internos. No cenário internacional, conflitos no Oriente Médio têm pressionado o preço do petróleo no mercado mundial, o que acaba refletindo no aumento dos combustíveis no Brasil. Internamente, os juros ainda em patamar elevado e a inflação resistente reduzem o poder de compra da população e fazem com que o crédito se torne uma alternativa até para despesas essenciais, como alimentação, contas básicas e serviços do dia a dia.
De acordo com o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, mesmo com o início de um processo gradual de queda da taxa básica de juros da economia, os efeitos dessa redução ainda não chegaram de forma significativa ao consumo das famílias, o que ajuda a explicar a manutenção do alto nível de endividamento.
O levantamento mostra ainda que o crescimento das dívidas foi mais intenso entre famílias de maior renda. Entre aquelas com rendimento acima de 10 salários mínimos, 69,9% estão endividadas. Nesse grupo, o crédito é usado muitas vezes como estratégia financeira para preservar recursos e manter o padrão de consumo diante das condições econômicas.
Entre as modalidades de dívida, o cartão de crédito continua sendo o principal vilão do orçamento doméstico, presente em cerca de 85% dos casos. Na sequência aparecem compras parceladas em carnês, empréstimos pessoais e financiamentos de imóveis e veículos, mostrando que o comprometimento da renda se espalha por diferentes tipos de compromisso financeiro.
Mesmo com o recorde de endividamento, a inadimplência — quando há atraso no pagamento das contas — apresentou estabilidade em março, ficando em 29,6%, mesmo índice do mês anterior, embora ainda acima do registrado no mesmo período do ano passado. Já o grupo de consumidores que afirma não ter condições de quitar as dívidas atrasadas apresentou leve recuo, passando para 12,3%, assim como aqueles que se consideram muito endividados, que caiu para 16%.
Outro ponto que chama atenção no levantamento é uma leve melhora no comprometimento da renda com dívidas, que ficou em 29,6%. Apesar de ainda elevado, o indicador mostra pequena redução em relação ao ano anterior, sugerindo um alívio parcial no orçamento das famílias, ainda que o cenário geral siga exigindo cautela e continue marcado por dificuldades financeiras para grande parte dos brasileiros.
Com informações do jornal O Globo / CNN e Portal UAI
Foto: © Valter Campanato/Agência Brasil