Mercado reduz juros futuros e vê espaço para queda maior em eventual governo Flávio Bolsonaro
Jornalista | Radialista | Comunicador Multimídia -
Reação após primeiro turno levou taxas futuras a recuarem mais de um ponto percentual; continuidade do movimento poderia reduzir o custo da dívida, mas dependerá da política fiscal, da inflação e das decisões do Banco Central
O resultado do primeiro turno da eleição presidencial provocou uma forte mudança nas expectativas do mercado financeiro brasileiro. Depois de Flávio Bolsonaro, do PL, terminar a votação à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, os juros futuros recuaram de forma acentuada, a Bolsa registrou uma das maiores altas dos últimos anos e o real ganhou força diante do dólar.
Uma das reações mais importantes ocorreu justamente nos juros projetados para os próximos anos. O contrato com vencimento em janeiro de 2028 caiu de 13,509% para 12,665%. Nos prazos mais longos, a redução foi ainda maior. Para janeiro de 2035, a taxa recuou de 14,131% para aproximadamente 12,8%, uma queda de 1,33 ponto percentual.
Esses contratos são negociados diariamente e funcionam como um termômetro das expectativas dos investidores. Quando as taxas futuras caem, o mercado está indicando que passou a exigir juros menores para compromissos financeiros com vencimento nos próximos anos.
Parte desse movimento foi associada por analistas à possibilidade de mudança na condução das contas públicas caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno. A avaliação presente no mercado é de que um eventual governo do candidato do PL possa adotar uma política de maior controle dos gastos e de redução do risco fiscal.
Essa percepção ajuda a explicar por que as maiores quedas apareceram justamente nos contratos de prazo mais longo, que são mais sensíveis às expectativas sobre dívida pública, inflação e capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas.
Isso não significa, entretanto, que uma vitória de Flávio Bolsonaro garanta juros menores. Para que a melhora percebida pelo mercado se mantenha, será necessário que as expectativas sejam confirmadas pelas propostas e, posteriormente, pelas medidas econômicas efetivamente adotadas. Inflação, cenário internacional e as decisões do Banco Central também continuarão influenciando as taxas.
A possibilidade de juros mais baixos ganha importância diante do tamanho da dívida brasileira. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto. Nos 12 meses encerrados naquele mês, os juros nominais do setor público somaram aproximadamente R$ 1,18 trilhão.
Um cálculo do Banco Central mostra quanto uma mudança efetiva da taxa básica de juros pode representar para as contas públicas. Segundo a instituição, uma redução de um ponto percentual da Selic, mantida durante 12 meses, teria impacto estimado de R$ 65,8 bilhões sobre a Dívida Bruta do Governo Geral. Para a Dívida Líquida do Setor Público, o efeito calculado seria de R$ 71,5 bilhões.
Os R$ 65,8 bilhões, portanto, não representam uma economia que já tenha ocorrido depois da eleição. A queda registrada nesta semana aconteceu nos contratos de juros futuros, enquanto a estimativa do Banco Central considera outro cenário: uma redução efetiva de um ponto percentual na Selic mantida durante um ano.
Ainda assim, a queda dos contratos futuros é relevante porque mostra que os investidores passaram a trabalhar com um cenário de juros mais baixos do que aquele considerado antes da votação. Caso uma melhora das condições fiscais se confirme e contribua para um ambiente de inflação e expectativas mais favoráveis, o custo de financiamento da dívida também poderá ser beneficiado.
A mudança de percepção apareceu com força também na Bolsa. O Ibovespa disparou 7,7% no primeiro pregão depois da eleição e terminou o dia aos 206.911 pontos. Foi a primeira vez que o principal índice do mercado brasileiro fechou acima dos 200 mil pontos.
Durante as negociações, o Ibovespa chegou aos 209.605 pontos. Com a valorização das ações, o conjunto das empresas listadas na B3 ganhou aproximadamente R$ 365 bilhões em valor de mercado no fechamento do pregão.
O câmbio acompanhou a melhora dos ativos brasileiros. Pela Ptax, referência calculada pelo Banco Central, o dólar caiu 4,55% e terminou cotado próximo de R$ 4,99.
A intensidade dos movimentos de juros, Bolsa e câmbio mostra que o resultado do primeiro turno alterou as expectativas dos investidores para a economia brasileira. Parte do mercado passou a incorporar aos preços a possibilidade de uma política fiscal mais restritiva em um eventual governo Flávio Bolsonaro.
O segundo turno, porém, ainda será realizado, e as propostas econômicas dos candidatos terão peso na formação dessas expectativas. Mesmo em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, a continuidade da queda dos juros dependerá da política fiscal efetivamente adotada, do comportamento da inflação, das decisões do Banco Central e das condições da economia brasileira e internacional.
Com informações da Folha – UOL- CNN e Portal UAI
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