Mais de 29 milhões de mulheres sofreram violência no Brasil em apenas 12 meses; maioria não denuncia
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Cerca de 29 milhões de mulheres brasileiras passaram por situações de violência doméstica ou familiar em um período de 12 meses. O número consta da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, com coleta de dados da Nexus, e integra o Mapa Nacional da Violência de Gênero, divulgado nesta quarta-feira (26/08).
O levantamento chama atenção não apenas pela dimensão do problema, mas também pela dificuldade de muitas vítimas em reconhecer e identificar a violência sofrida. Do total estimado, aproximadamente 24,97 milhões de mulheres relataram situações concretas de violência, mas não classificaram espontaneamente essas experiências dessa maneira.
A diferença aparece de forma clara na metodologia da pesquisa. Quando questionadas diretamente se haviam sofrido violência doméstica ou familiar no ano anterior, apenas 4% das brasileiras responderam afirmativamente. Porém, quando foram apresentadas a situações específicas de violência, sem que o termo fosse utilizado na pergunta, o percentual chegou a 33%.
Isso significa que cerca de 87% das vítimas não reconheceram ou não nomearam espontaneamente as experiências vividas como violência. O resultado evidencia uma distância significativa entre aquilo que acontece no cotidiano das mulheres e o que efetivamente chega aos sistemas oficiais de proteção.
Milhões de vítimas não procuram ajuda
Outro dado considerado relevante pelo levantamento está relacionado à busca por proteção. Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar, aproximadamente 1,87 milhão não procuraram uma delegacia, o Ligue 180 ou o 190.
Quando esse grupo é somado às mulheres que vivenciaram situações de violência, mas não as identificaram espontaneamente como tal, o número chega a 26,84 milhões de brasileiras. Segundo a pesquisa, isso corresponde a 93,6% das vítimas que ficam fora do registro de busca por proteção policial.
O estudo ressalta que esses grupos são considerados separadamente, sem dupla contagem. A estimativa, portanto, não significa que todas essas mulheres estejam fora de toda a rede de proteção, mas evidencia o tamanho da parcela que não chega aos registros de busca por atendimento policial.
A discrepância entre os dados também ajuda a explicar por que os registros administrativos não conseguem, sozinhos, dimensionar toda a extensão da violência contra as mulheres no país. Os sistemas públicos de segurança, saúde e Justiça registram apenas parte das situações efetivamente vivenciadas.
Estados apresentam diferenças
A pesquisa também identificou diferenças entre os estados brasileiros. Alagoas apresentou a maior proporção de mulheres que vivenciaram situações de violência nos últimos 12 meses sem reconhecê-las espontaneamente como tal, com 36%.
Na sequência aparecem Amazonas, com 35%, e Acre e Tocantins, ambos com 34%.
Para Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura, os números indicam que a dimensão real do problema é superior àquela revelada pelos registros oficiais.
A avaliação é de que muitas mulheres passam por situações violentas sem necessariamente identificá-las ou nomeá-las dessa forma. Com isso, a demanda por proteção e atendimento pode ser muito maior do que aquela que chega às delegacias, aos serviços de saúde e à Justiça.
Violência interfere na rotina das vítimas
O impacto da violência também aparece na vida cotidiana. Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem, cerca de 69% afirmaram que o episódio afetou sua rotina diária.
O maior percentual foi registrado no Tocantins, com 78%, enquanto Pernambuco apresentou o menor índice, de 58%.
A pesquisa também aponta uma relação com a vulnerabilidade econômica. No Brasil, 56% das mulheres vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos. A proporção chega a 74% no Maranhão e em Sergipe e é de 35% em Santa Catarina.
Companheiros aparecem como principais agressores
Outro dado que chama atenção é a relação entre vítima e agressor. Em 62% dos casos registrados no levantamento, o responsável pela violência é o marido ou companheiro da vítima.
A proporção varia entre os estados. No Acre, chega a 73%, enquanto no Distrito Federal corresponde a 48%.
Os números mostram que a violência doméstica ou familiar permanece, em grande parte, inserida no ambiente de relações próximas. Ao mesmo tempo, a dificuldade de reconhecer determinadas situações como violência e a baixa procura pelos mecanismos de proteção contribuem para manter uma parcela expressiva desses casos distante dos registros oficiais.
A pesquisa reforça, assim, o tamanho do desafio para as políticas públicas: compreender não apenas os casos que chegam às autoridades, mas também as situações vivenciadas por milhões de mulheres que não se reconhecem como vítimas ou não procuram os canais disponíveis de proteção.
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